terça-feira, janeiro 17, 2017

O poeta Roberto Bolaño


Roberto Bolaño (1953-2003) ficou mundialmente conhecido pelo seu monumental romance 2666, publicado postumamente na Espanha em 2004, o livro se transformou em um tremendo sucesso editorial após a tradução americana, lançada no mercado dos EUA em 2008, que elevou o autor chileno (e que todos achavam ser mexicano) à categoria de mito literário, comparado somente aos escritores da geração beat (ver resenhas do New York Times, Guardian e Independent). 2666 foi o vencedor do National Book Critics Circle Award nos Estados Unidos e eleito o livro do ano pela Time Magazine.

O fato é que a produção em prosa de Roberto Bolaño gerou grandes romances como o já citado 2666, Os Detetives SelvagensO Terceiro Reich, sem falar nos seus contos maravilhosos, caso da antologia Putas assassinas. Tantas boas histórias acabaram ofuscando o talento do autor como poeta. Um belo texto chamado "El Poeta Roberto Bolaño" foi escrito pela espanhola Ouvido García Valdés, outra grande poeta, e incluído no catálogo da exposição "Archivo Bolaño 1977 - 2003", por ocasião dos dez anos da morte do autor em 2013, uma produção do  Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona - CCCB. Traduzi abaixo uma parte deste texto, uma bonita reflexão sobre a vida e a poesia na obra de Bolaño.

O Poeta é um Perdedor
"Árvores: raiz, tronco, ramos, os círculos dos seus anos. No final da poesia publicada de Roberto Bolaño se encontra o poema 'Retrato em maio, 1994', no qual o poeta utiliza uma árvore como modelo — o mais antigo modelo, afinal de contas — para a vida. Pertence a 'Um final feliz', uma antologia breve que reúne poemas escritos nos primeiros anos da década de noventa, a época também de 'Minha vida nos tubos de sobrevivência', obra já marcada pela doença e sua sombra. Se a poesia de Bolaño utiliza sempre os materiais da própria vida (e a vida inclui a literatura), nesta zona são frequentes os que denomina autorretratos, assim como fotos isoladas do rolo de um filme existencial. Bolaño escreve para si mesmo e, ainda assim, tende a inserir um 'você' em sua poesia, que toma a figura de Lautaro, seu primeiro filho. Um diálogo com uma vida que está começando, e também a transmissão de um legado, que é a própria vida, agora que suspeita que esteja chegando ao final. Muitos anos antes deste retrato em maio, o autor encerrava um poema e um livro com as palavras 'Desejo que te amem e que não conheças a morte', e a mesma pulsão atravessa estes textos, com lucidez, sem engano nem autoengano.
O poema começa assim: 'Meu filho, o representante das crianças / nesta costa abandonada pela Musa, / hoje completa entusiasta e tenaz quatro anos. / Os autorretratos de Roberto Bolaño / voam fantasmas como as gaivotas na noite / e caem a seus pés como cai o orvalho / nas folhas de uma árvore, a representante / de tudo o que poderíamos ter sido, / fortes e enraizadas no que não muda. / Mas não tivemos fé ou tivemos em tantas outras coisas / finalmente destruídas pela realidade / (A Revolução, por exemplo, esse prado / de bandeiras vermelhas, campos de pastagens férteis) / que nossas raízes foram como as nuvens / de Baudelaire. E agora são os autorretratos / de Lautaro Bolaño os que dançam em uma luz / ofuscante'.
Sonho e fracasso, quadro em que se desenvolve cada geração, ligações que formam a cadeia humana. Ah, se fôssemos como as árvores, não aquelas abençoadas por serem 'apenas sensíveis', mas sim as poderosas árvores enraizadas no que não muda. Sonho e fracasso emolduram cada um dos livros de Bolaño, para quem o sonho primordial, o fundador, foi a poesia, e para quem o fracasso e a perda, que são os do transcurso e transformação da vida, tiveram sempre a forma inevitável da consciência.
A poesia, sim. O que faz necessário perguntarmo-nos sobre o lugar de Roberto Bolaño como poeta. Poeta e narrador, devemos dizer, mas não é comum ouvir falar dele como poeta; o narrador parece tê-lo dominado, ou, mais precisamente, o narrador o havia impedido de existir, porque na realidade o poeta Bolaño para o público e a crítica não parece haver chegado a existir. É certo que publicou antologias e livros de poesia. É verdade também que em 2007 apareceu 'A Universidade Desconhecida', título no qual Bolaño deixou reunida toda a sua obra poética desde 1978, e que ele trabalhou nessas pastas, conforme se entende da nota de Carolina López, sua esposa, até 1998; ou seja, entre os seus 25 e 45 anos. E ainda teríamos que destacar que Bolaño publicou em 2002 — na coleção 'Narrativas Hispânicas' da editora Anagrama — 'Amberes', livro que, sem dúvida, também figura incluído, com o título de 'Gente que se aleja', no conjunto de sua poesia. E que 'Amberes', de fato, foi recebido pela crítica como um romance; com certa reticência, isso sim, porque não foi fácil — segundo assinalaram então alguns leitores — aceitá-lo como romance.
Quando em julho de 2003, poucos dias antes de sua morte, Mónica Maristain lhe perguntou (em entrevista com o título de 'Estrela distante') se ele também via a sua obra 'como a viam seus leitores e críticos: acima de tudo 'Os detetives selvagens' e depois todo o resto', Bolaño respondeu: 'O único romance de que não me envergonho é 'Amberes', talvez porque continua sendo ininteligível. As críticas ruins que recebeu são minhas medalhas ganhas em combate, não em escaramuças com fogo simulado. O restante de minha 'obra', pois bem, são romances de entretenimento, o tempo dirá se algo mais. No momento me dão dinheiro, são traduzidas, me servem para fazer amigos que são muito generosos e simpáticos, posso viver, e bastante bem, da literatura, de forma que queixar-me seria muito ingrato. Mas a verdade é que não concedo muita importância a meus livros. Estou muito mais interessado nos livros dos demais'.
A literatura é uma paixão, desde já; e é uma indústria, dinheiro; pode ser também fome. Roberto Bolaño triunfou como narrador na indústria da literatura porque como poeta — poeta invisível como com frequência resultam os poetas — sentiu que estava destinado à fome. Eu o conheci quando Miguel Casado — ele próprio poeta e crítico, e meu parceiro há 33 anos —, em meados dos anos noventa, depois de ler "Estrela distante', lhe escreveu perguntando-lhe por sua poesia. Não lhe havia visto fazer isso antes, nem voltou a fazer depois.
Bolaño é um poeta. Que abominava — com razão — a 'horda' dos poetas, dos dois lados do Atlântico (E vi / suas carinhas satisfeitas, graves adidos culturais e corados / Diretores de revistas, leitores de editoriais e pobres / Revisores (...) os porcos frios, abside / Ou arranhão no Grande Edifício do Poder'), e que adorava os nomes de alguns verdadeiros poetas."Ouvido García Valdés (2003)

Recomendo visitar a página do jornal literário Rascunho com alguns poemas de Roberto Bolaño selecionados e traduzidos para o português por André Caramuru Aubert, poemas absurdamente lindos como os três que destaquei abaixo: 

          SEM TÍTULO 
          
          Esperas que desapareça a angústia 
          Enquanto cai a chuva sobre a desconhecida estrada 
          Onde te encontras 

          Chuva: apenas espero 
          Que desapareça a angústia 
          Estou dando tudo de mim

          POETA CHINÊS EM BARCELONA
           
          Um poeta chinês pensa ao redor 
          de uma palavra sem chegar a tocá-la, 
          sem chegar a olhá-la, sem 
          chegar a representá-la. 
          Atrás do poeta há montanhas 
          amarelas e secas varridas 
          pelo vento, 
          chuvas ocasionais, 
          restaurantes baratos, 
          nuvens brancas que se fragmentam. 

          OS CÃES ROMÂNTICOS
          
          Naquele tempo eu tinha vinte anos 
          e estava louco. 
          Havia perdido um país 
          mas havia ganhado um sonho. 
          E se tinha esse sonho 
          o resto não importava. 
          Nem trabalhar, nem rezar, 
          nem estudar de madrugada 
          junto aos cães românticos. 
          E o sonho vivia no vazio de meu espírito. 
          Uma morada de madeira, 
          na penumbra, 
          em um dos pulmões do trópico. 
          E às vezes me revirava dentro de mim 
          e visitava o sonho: estátua eternizada 
          em pensamentos líquidos, 
          um verme branco se retorcendo 
          no amor. 
          Um amor desbocado. 
          Um sonho dentro de outro sonho. 
          E o pesadelo me dizia: crescerás. 
          Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto 
          e esquecerás. 
          Mas naquele tempo crescer teria sido um crime. 
          Estou aqui, eu disse, com os cães românticos 
          e aqui eu vou ficar.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Dias Gomes - O Bem-Amado

Dias Gomes - O Bem-Amado - Editora Bertrand Brasil (Grupo Editorial Record) -  126 Páginas - Relançamento de 2014 em uma série de livros de Dias Gomes com novo projeto gráfico (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Uma boa definição para que um texto possa ser considerado "clássico" é que ele seja atemporal e universal, condições atendidas na comédia "O Bem-Amado, farsa sociopolítico-patológica em 9 quadros" de Dias Gomes (1922-1999), um marco da dramaturgia nacional, que deve muito de sua popularidade à adaptação para telenovela escrita pelo próprio Dias Gomes em 1973. É estranho pensar como houve um tempo na TV brasileira em que se produziam novelas com este nível de qualidade. A Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, relançou em 2014 vários títulos da obra de Dias Gomes, incluindo "O Pagador de Promessas" e "O Bem-Amado" em uma série com um novo projeto de identidade visual.

Odorico Paraguaçu é o prefeito corrupto de Sucupira, pequena cidade de veraneio fictícia do litoral baiano. Ele foi eleito com base em uma plataforma política incomum, prometeu construir o primeiro cemitério da cidade e realmente cumpriu a sua promessa eleitoral, com base no desvio de verbas públicas, mas não consegue inaugurar a sua obra devido à súbita ausência de mortes em Sucupira. Para conseguir superar este "imprevisto" planeja uma série de ações nada éticas, sempre com o apoio de suas fervorosas correligionárias, as irmãs Cajazeira: Doroteia, Dulcineia e Judiceia, além da ajuda de Zeca Diabo, um cangaceiro arrependido, que é convocado pelo prefeito na esperança de que o mesmo possa voltar à sua antiga prática homicida, permitindo assim finalmente inaugurar o cemitério local. Em política, como afirma Odorico Paraguaçu nesta maravilhosa sátira aos nossos governantes, "os finalmentes justificam os não obstantes", qualquer semelhança não é, obviamente, mera coincidência.

Tão relevante quanto ler o texto original da peça, mais de 50 anos após o lançamento, e constatar a extrema atualidade da obra com os fatos recentes da política nacional, foi conhecer o texto preparado por Dias Gomes como introdução ao programa da produção carioca encenada no Teatro Glaucio Gill em 1970 (ler abaixo). Este texto resume as limitações das produções teatrais da época (as mesmas de hoje), assim como a formação do típico político brasileiro que, apesar da época de exceção em que a peça foi encenada, ainda é muito semelhante aos representantes da nossa classe política na atualidade "porque são frutos não da prática da democracia, mas da alienação e do oportunismo dos governantes, eleitos ou nomeados, escolhidos ou impostos." Antes de mais nada, "O Bem-Amado" ainda é um texto delicioso para todas as idades e que se lê com prazer de uma só vez, sem conseguir parar, posso garantir.

      "De todas as minhas peças, foi esta a que teve vida mais acidentada. Sua primeira versão data de 1962. Do tempo em que escrever uma peça com 15 personagens e esperar que ela fosse encenada não era, como hoje, sinal evidente de desajustamento ou debilidade mental, reclamando para o seu autor internamento urgente numa clínica especializada. Hoje, os empresários não leem mais peças, contam as personagens. E quando estas excedem de três, olham para nós com cara de espanto:
      — Para que tudo isso? Quer que haja mais gente no palco do que na plateia?
      E devolvem a peça, obrigando-nos a pedir desculpas pelo nosso delírio de grandeza.
      — Quinze personagens! Por que você não escreve uma ópera? Teatro é a arte da síntese!
      E o Teatro Brasileiro parece que caminha brilhantemente para a síntese total: todas as personagens numa só. E não está longe o dia em que, na plateia, haverá também um único espectador — a maravilhosa síntese de todos os outros! Teremos então alcançado a perfeição.
      Por isso, como 'Odorico' não foi encenada imediatamente — vendi o seu argumento para um filme que nunca foi feito —, passados oito anos, parecia antediluviano sobrevivente de uma idade perdida quando surgiu um jovem e audaz produtor querendo levá-la à cena. Confesso que, a princípio, não acreditei. Naturalmente ia me pedir para fundir todas as personagens em duas ou três etc. Mas não, permitiu até que entrasse mais uma, um vira-lata. Espantoso! E tudo isso acontecendo no estado da Guanabara, onde o Teatro é olhado como uma praga que é preciso extinguir, coisa que ofende mais as narinas de certas pessoas que os peixes que morrem diariamente na lagoa. Fantástico.
      Bem, mas aí está 'Odorico' em cena, por mais fantástico que pareça. Esta peça pertence a uma fase em que a dramaturgia brasileira procurava pesquisar nossa realidade, fazendo uma espécie de tipificação do nosso povo. Odorico Paraguaçu é um tipo de político que — embora a prática de eleições pareça já coisa do passado — é bastante comum, não só no interior como nas grandes cidades. É claro que o grau de demagogia e paranoia é variável. Mas o processo é o mesmo. E não se pense que a proibição do povo de eleger livremente seus candidatos nos livra dos Odoricos provincianos ou citadinos, estaduais ou federais. Eles existem e continuarão existindo, com maior ou menor extroversão, porque são frutos não da prática da democracia, mas da alienação e do oportunismo dos governantes, eleitos ou nomeados, escolhidos ou impostos."Dias gomes, 1970.

Relançamento de peças de Dias Gomes: "O Pagador de Promessas", "O Bem-Amado", "Campeões do Mundo".

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Julián Fuks - A Resistência

Julián Fuks - A Resistência - Editora Companhia das Letras - 144 páginas - Lançamento: 05/10/2015 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Este livro alterna entre a autobiografia e ficção, utilizando "palavras guardadas na obscuridade da memória, palavras já esquecidas e transformadas em vagas noções, turvas imagens, impressões duvidosas", assim define em certa passagem o angustiado protagonista Sebastián, representação do autor Julián Fuks, na tentativa de resgatar a sofrida história da própria família, a começar pela resistência política dos pais argentinos, exilados no Brasil, fugitivos da ditadura militar em seu país de origem. Outra resistência que permeia toda a narrativa é a do irmão mais velho, que foi adotado ainda na Argentina, neste caso uma resistência ao convívio familiar. Contar os dramas particulares da própria família não deve ter sido uma tarefa fácil, ainda mais porque o autor partiu apenas das já citadas "vagas noções" dos fatos e com elas precisou "construir o edifício desta história, sobre alicerces subterrâneos tremendamente instáveis".

A prosa de Julián Fuks é precisa e essencial, percebe-se o rigor cirúrgico do autor que deve ter norteado o desenvolvimento de todo o texto, mas nunca deixando de lado a emoção. E como não se emocionar com a descrição dos desaparecidos políticos durante o regime militar argentino, é claro que escrever pode ser um grande ato de resistência, principalmente ao descrever o sentimento de perda que sua mãe sofreu depois da prisão de uma amiga: "Minha mãe não deixou de perguntar, mas o silêncio foi se tornando mais frequente que as palavras e aos poucos aquela ausência ocupou o espaço que a amiga ocupara, roubando-lhe o nome, deformando na memória seus traços. (...) a atrocidade de um regime que mata e que, além de matar, aniquila os que cercam suas vítimas ignoradas, lutos obstruídos, histórias não contadas — a atrocidade de um regime que mata também a morte dos assassinados." Muito dolorosa, mas também linda essa passagem, não é mesmo?

A tentativa de reconstituir a origem do irmão adotado e com isso gerar algum tipo de aproximação, de certa forma impossível, é outra meta da ficção de Julián Fuks. Há um pedaço de papel já amarelado guardado em uma gaveta. Segundo a mãe, neste eterno lembrete constam o nome e o telefone da parteira que propiciou a adoção clandestina na época, mas ninguém nunca se atreveu a discar este número, sabendo que se trataria de um erro óbvio, provavelmente um destinatário inexistente. Enfim, escrever um livro mais sincero, mais sensível, é o que cogita o protagonista como se escrevesse uma carta para o irmão, cujo nome nunca é pronunciado. Na verdade, a grande motivação é este irmão, um irmão possível que originou esta narrativa: "Sobre isso você devia escrever um dia, sobre ser adotado, alguém precisa escrever".

Certamente o mais importante lançamento da literatura nacional em 2016, este romance tão pessoal conduziu Julián Fuks à condição de um dos autores mais premiados do ano, conquistando o Jabuti de melhor livro de ficção e ainda sendo finalista dos prêmios Oceanos e São Paulo. Uma obra madura de um autor que, assim como o seu protagonista, herdou a condição de exilado, mas nem por isso tem medo de se expor e escrever com sensibilidade, uma condição necessária para que ocorra a verdadeira literatura.

          "Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo me irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.
          Poderia empregar o verbo no passado e dizer que meu irmão foi adotado, livrando-o assim do presente eterno, da perpetuidade, mas não consigo superar a estranheza que a formulação provoca. Meu irmão não era algo distinto até que foi adotado; meu irmão se tornou meu irmão no instante em que foi adotado, ou melhor, no instante em que eu nasci, alguns anos mais tarde. Se digo que meu irmão foi adotado, é como se denunciasse sem desespero que o perdi, que o sequestraram, que eu tinha um irmão até que alguém veio e o levou para longe.
           A opção que resta é a mais pronunciável; entre as possíveis, é a que causa menos inquietação, ou a que melhor a esconde. Meu irmão é filho adotivo. Há uma tecnicidade no termo, filho adotivo, que contribui para sua aceitação social. Há uma novidade que por um átimo o absolve das mazelas do passado, que parece limpá-lo de seus sentidos indesejáveis. Digo que meu irmão é filho adotivo e as pessoas tendem a assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada. Talvez compartilhem da minha inquietude, talvez de fato se esqueçam do assunto no próximo gole ou na próxima garfada. Se a inquietude continua a reverberar em mim, é porque ouço a frase também de maneira parcial — meu irmão é filho — e é difícil aceitar que ela não termine com a verdade tautológica habitual: meu irmão é filho dos meus pais. Estou entoando que meu irmão é filho e uma interrogação sempre me salta aos lábios: filho de quem?"

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Ricardo Piglia (1941-2017)

"Sobre aquilo que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado."
 Respiración Artificial - Ricardo Piglia

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Prêmio Sesc de Literatura 2017


Uma das melhores oportunidades de divulgação para escritores iniciantes, o Prêmio Sesc de Literatura, promovido pelo Serviço Social do Comércio, tem o objetivo de premiar anualmente obras inéditas nas categorias Conto e Romance, destinadas ao público adulto, escritas em língua portuguesa, por autores brasileiros ou estrangeiros residentes no Brasil. Os vencedores terão suas obras publicadas pela editora Record, que é responsável pela edição e distribuição, com tiragem inicial de dois mil exemplares. As inscrições para o Prêmio Sesc poderão ser feitas à partir do dia 09 de janeiro até 17 de fevereiro e os vencedores serão anunciados em junho de 2017 (consultar o edital completo aqui).

Uma premissa básica é que o candidato deverá enviar um livro que nunca tenha sido publicado. Entende-se por publicação o processo de edição de uma obra literária e sua distribuição em livrarias ou pela internet, ainda que o livro não possua número de registro no ISBN. Obras lançadas em plataformas digitais não poderão ser inscritas, ainda que disponíveis para download gratuito. Cada concorrente poderá participar com apenas uma obra em cada categoria. Caso participe em ambas as categorias, as inscrições deverão ser realizadas separadamente. Informações adicionais e dúvidas sobre o Prêmio Sesc de Literatura 2017 podem ser obtidas pelo e-mail literatura@sesc.com.br.

O concurso já promoveu 23 novos autores, sendo uma das poucas chances de ingresso no mercado para os escritores estreantes. Mais do que oferecer uma oportunidade aos novos escritores, o Prêmio Sesc de Literatura cumpre um importante papel na área cultural, proporcionando uma renovação no panorama literário brasileiro. na versão 2015 foram premiadas Sheyla Smanioto com o romance "Desesterro" e Marta Barcellos com o livro de contos "Antes que Seque". Em 2016, os vencedores foram Franklin Carvalho com o romance "Céus e Terra" e Mário Rodrigues com a coletânea de contos "Receita para se fazer um monstro"Para conhecer todos os vencedores do Prêmio Sesc, desde a sua criação, clique aqui.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Jean Genet - Nossa Senhora das Flores

Jean Genet - Nossa Senhora das Flores (Título original: Notre-Dame-des-fleurs) - Editora Nova Fronteira - 332 páginas - Tradução de Newton Goldman - Apresentação de Jean-Paul Sartre (Lançamento no Brasil: 1983, edição esgotada).

Sem dúvida o mais maldito dos autores malditos, o escritor, poeta e romancista francês Jean Genet (1910-1986) elevou os marginais à categoria de heróis e transformou a "decadência em triunfo", principalmente neste livro que é o primeiro e o mais pessimista de toda a sua obra, refletindo a sua existência polêmica (talvez um pouco mais do que polêmica; marginal seria uma expressão mais apropriada). Passando sucessivamente, ao longo da vida, pelas etapas de ladrão, mendigo, prostituto e presidiário, Genet seria certamente condenado à prisão perpétua, por nove processos criminais, se não fosse um movimento criado por um grupo de intelectuais franceses liderado por Jean Cocteau. Outro ilustre defensor foi Jean-Paul Sartre que considerava Nossa Senhora das Flores uma das três grandes obras “medievais” do século XX, ao lado de "Ulisses", de James Joyce e de “Duas Existências”, do dramaturgo Jean Girandoux. Jean-Paul Sartre escreveu a apresentação incluída nesta edição (originalmente publicada na obra "Saint Genet, comédien et martyr" - Editora Gallimard).
"Frequentemente considerada a obra-prima de Genet, Nossa Senhora das Flores foi totalmente escrito na solidão de uma cela de prisão. O excepcional valor da obra repousa em sua ambiguidade. A princípio parece ter apenas um tema, a Fatalidade: os personagens são os joguetes do destino. Porém logo descobrimos que esta impiedosa Providência não é senão a contrapartida de uma soberana — na verdade, divina — liberdade, a liberdade do autor. Nossa Senhora das Flores é o mais pessimista dos livros. Com diabólica diligência, conduz suas criaturas à decadência e à morte. Mas, mesmo assim, nas sua estranha linguagem, apresenta a decadência como um triunfo. Os marginais e os desgraçados que apresenta parecem ser heróis e fazer parte dos eleitos, e, o que é mais surpreendente ainda, o próprio livro é um ato do mais deslavado otimismo. As autoridades penitenciárias francesas, convencidas de que 'o trabalho é a liberdade', distribuem aos prisioneiros papel para que eles confeccionem sacolas: foi neste papel marrom que Genet escreveu, a lápis, Nossa Senhora das Flores. Um dia, enquanto os presos caminhavam pelo pátio, um guarda entrou na cela e reparou no manuscrito, confiscando-o para em seguida queimá-lo. No entanto, Genet recomeçou. Por quê? Para quem? Havia pouca possibilidade de manter seu trabalho até ser solto e menos ainda de editá-lo; e caso, contra todas essas probabilidades, ele vencesse as dificuldades, certamente o livro seria banido, confiscado e rasurado. Nada mais interessava a Genet exceto aquelas folhas de papel marrom que um fósforo poderia transformar em cinzas." (Págs. 7 e 8) - Apresentação de Jean-Paul Sartre.
Não é um livro fácil, principalmente porque é o resultado verdadeiro da solidão em uma cela de prisão, da masturbação e do desespero de Jean Genet que cria suas fantasias homossexuais com base em personagens originados em sua própria experiência com travestis, ladrões e assassinos. Todos eles, inclusive Genet, são transgressores em uma sociedade que os rejeita e isola, mas nem sempre é coerente com seus próprios princípios de justiça e igualdade. O livro é portanto uma espécie de salvação para esses perdedores que acabam atingindo, no inferno da prisão, um insólito status de "santidade", por outro lado, ainda segundo a análise de Sartre, o livro representa "o diário de uma desintoxicação, de uma conversão: nele, Genet desintoxica-se de si mesmo e volta-se para o mundo exterior. Na verdade este livro é a própria desintoxicação; não se contenta em ser testemunha da cura, mas concretiza-a."
"O cheiro da prisão é um cheiro de urina, formol e de pintura. Em todas as cadeias da Europa eu o reconheci e reconheci que este cheiro seria enfim o cheiro do meu destino. Em cada nova escorregada procuro nas paredes os traços das minhas prisões anteriores, isto é, dos meus desesperos anteriores, remorsos, desejos que um outro detento tenha gravado para mim. Exploro a superfície das paredes em busca do traço fraternal de um amigo. Pois se nunca soube o que poderia ser exatamente a amizade, que vibrações a amizade de dois homens constroem em seus corações e talvez nas suas peles, na prisão eu às vezes anseio por uma amizade fraternal, mas sempre com um homem — da minha idade — que seja bonito, que tivesse completa confiança em mim e que seria o cúmplice dos meus amores, dos meus roubos, dos meus desejos criminosos; embora isto não me elucide sobre tal amizade, sobre o cheiro, de um e de outro dos meus amigos, de sua intimidade secreta, porque para a ocasião eu me torno um macho que sabe que realmente não é. Espero a revelação na parede de qualquer segredo terrível: morte, sobretudo, mortes de homens, ou traição de amizade, ou profanação de Mortos e dos quais eu seria a tumba resplandecente. Porém não encontrei jamais senão algumas raras palavras gravadas sobre o gesso com um alfinete, fórmulas de amor e de ódio, geralmente de resignação: 'Jojo da Bastilha ama sua mulher até a morte.' 'A mamãe, meu coração, às putas, meu caralho, ao carrasco, minha cabeça.' (Págs. 119 e 120)
Nossa Senhora das Flores, publicado pela primeira vez em 1943, pode ser entendido como uma série de estímulos para as fantasias masturbatórias de Jean Genet na prisão. De fato, a própria invenção das personagens corresponde a este propósito. Um épico da masturbação, é como o autor considerava a sua obra maldita. Divina, um travesti que morre de tuberculose é a representação do próprio Genet e de seu desejo masoquista de ser dominado. As relações de Divina com seus amantes estão sempre relacionadas com a morte e a traição em uma inversão de códigos da moralidade convencional. Desumanizar é a melhor palavra para definir este processo de subversão de valores. Mignon, um dos amantes de Divina, considerava um prazer trair e vender os amigos, pois isso o desumanizava. "Desumanizar-me a mim mesmo é a minha mais fundamental tendência." (talvez uma fala para o próprio Jean Genet). 
"Embora marginal, Mignon tinha um rosto luminoso. Era o belo macho, violento e doce, nascido para ser marginal, tão nobre de porte que parecia estar sempre nu, menos num gesto ridículo e (para mim) enternecedor: as costas arqueadas, sustentando-se primeiro num pé, depois no outro, para poder tirar suas calças e cuecas. Antes de nascer, Mignon foi batizado em segredo, isto é, beatificado também, praticamente canonizado, no ventre quente da mãe. Foi feito uma espécie de batismo branco que deveria, assim que ele morresse, enviá-lo ao limbo; em suma, uma destas cerimônias breves, mas misteriosas e extremamente dramáticas em sua densidade, suntuosas também, para as quais são convocados os Anjos, e nas quais os devotos da Divindade foram mobilizados, assim como a própria Divindade. Mignon tem consciência disso, mas não muito bem, o que quer dizer que durante sua vida, antes que lhe dissessem alto e em bom som, parece que alguém lhe cochichou estes segredos. E esse batismo secreto, com o qual começou sua vida e que se alonga por ela afora, doura sua vida à medida que ela se desenrola, a envolve numa cálida, tênue e ligeiramente luminosa auréola, erigindo para esta vida de cafetão um pedestal ornado de flores, como um caixão de uma virgem é decorado de hera trançada, um pedestal maciço e entretanto leve do alto do qual, desde os quinze anos, Mignon vem mijando na seguinte posição: pernas abertas, joelhos ligeiramente encurvados, e em jatos mais rígidos desde os dezoito anos." (Pág. 95)
É, portanto, surpreendente constatar como uma obra criada com uma função sórdida e em um ambiente tão hostil, fadada à destruição ou censura, possa ter sobrevivido e se tornado um clássico da literatura do século XX, além de influência no trabalho de vários artistas contemporâneos, no teatro e até mesmo na música. Posso citar uma referência recente, "Linha M" de Patti Smith, que descreve uma viagem da autora e seu marido Fred Sonic smith, no final dos anos setenta, até Saint-Laurent-du-Maroni, uma cidade fronteiriça no noroeste da Guiana Francesa, para visitar as ruínas de uma colônia penal onde ficavam os criminosos antes de serem transferidos para a famosa Ilha do Diabo que foi posteriormente desativada, por ser considerada desumana. Em "Diário de um ladrão", Genet descreve este lugar como um território sagrado e Patti Smith recolhe um pouco de pedras e terra para presentear Genet ainda vivo na época.

Fotografia de Brassai de Jean Genet em 1940 e colorizada por Loredana Crupi

terça-feira, dezembro 27, 2016

A arte do Batik indonésio

Kain Panjang-100, Autor desconhecido (1940)
O Batik é uma técnica de tingimento em tecido originária da ilha de Java na Indonésia. As figuras exóticas, padrões e símbolos ancestrais são desenhados e coloridos de forma artesanal e, portanto, original e única através de sucessivos tingimentos no tecido, protegido por máscaras de cera, onde somente as partes não vedadas são tingidas. A aplicação das áreas protegidas pela cera é feita sobre a seda com pincel ou uma ferramenta chamada de "tjanting", espécie de caneta cilíndrica com funil de bico por onde é conduzida a cera derretida que irá produzir os traços desejados no tecido. Ver aqui imagens e um vídeo produzido pela UNESCO que explica a origem e todo o processo de criação. Para identificar os detalhes em alta definição, recomendo as galerias do Google Art Project: Batik motifs e The Art of Batik Madura.

Kain Panjang-376, Autor desconhecido (2000)
Na verdade, a arte do Batik indonésio foi considerada pela UNESCO em 2009 como Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível da Humanidade, uma categoria que compreende a preservação das expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e transmitem a seus descendentes. As técnicas, o simbolismo e a cultura do Batik permeiam as vidas dos Indonésios do início ao fim: as crianças são transportadas em berços de Batik decorados com símbolos destinados a trazer sorte à criança e os mortos são envoltos em tecidos de Batik funerário. Roupas com desenhos cotidianos são usados ​​regularmente em ambientes empresariais e acadêmicos, enquanto variedades especiais são incorporadas em celebrações de casamento, gravidez e em teatro de fantoches, assim como outras formas de arte.

Kain Sarung 28, Autor Desconhecido (1950)
A grande diversidade de padrões reflete uma variedade de influências, que vão desde a caligrafia árabe, flores europeias, pássaros chineses, flores de cerejeira japonesas e pavões indianos ou persas. A arte do Batik está entrelaçada com a identidade cultural do povo indonésio e, através dos significados simbólicos de suas cores e desenhos, expressa sua criatividade e espiritualidade.

segunda-feira, dezembro 26, 2016

Itō Shinsui e a beleza da mulher japonesa

Itō Shinsui, "Mulher Olhando para o Espelho" (detalhe), 1916
As primeiras décadas do século XX marcaram um momento de grande industrialização e modernização no Japão, um país que sempre soube preservar a sua cultura. Ocorreu então um choque entre as ideologias ocidentais e os valores japoneses tradicionais. Itō Shinsui (1898-1972), um dos artistas gráficos japoneses mais conhecidos no ocidente, cresceu e desenvolveu suas primeiras obras durante este período de agitação cultural. No entanto, mais de dois terços de suas gravuras são retratos de mulheres com roupas tradicionais japonesas e penteados correspondentes ao ideal de beleza local. As composições são de extrema perfeição técnica e as impressões conhecidas como ukiyo-e (imagens do mundo flutuante em tradução literal — ler mais sobre o movimento nesta postagem do Mundo de K).

Gravuras de Itō Shinsui de 1923, 1936 e 1929
Se por um lado a inspiração de seus retratos é totalmente originada na tradição oriental, o realismo figurativo dos desenhos comprova a familiaridade com a arte moderna importada do ocidente. A mostra "New Women for a New Age - Japanese Beauties, 1890s-1930", atualmente em exibição no Museum of Fine Arts de Boston, avalia a transformação da imagem das mulheres japonesas através das impressões, ilustrações de livros e fotografias feitas no Japão à partir da década de 1890 até a década de 1930. A arte de Itō Shinsui continuou fiel à delicadeza e tradição dos temas japoneses como podemos comprovar na ilustração abaixo de 1955. Para conhecer mais sobre o trabalho deste artista e outros ligados ao movimento, recomendo visitar o site ukiyo-e.org (japanese woodblock print search) que disponibiliza um banco de dados com mais de 200.000 imagens de diversos museus, universidades e bibliotecas.

Gravura de Itō Shinsui de 1955

quinta-feira, dezembro 22, 2016

Por que a distopia é sempre mais interessante do que a utopia?

Hieronymus Bosch (1450 - 1516) - Detalhe de "O Jardim das delícias terrenas"
Escrever sobre distopias sempre provoca um maior interesse nos leitores do que os textos sobre utopias. Posso falar por experiência própria porque já publiquei duas postagens semelhantes e na mesma época aqui no blog sobre o tema: "As 20 melhores utopias da literatura" e "As 20 melhores distopias da literatura". Hoje, quando comparo os dois textos em termos de popularidade, vejo que o desempenho das distopias é francamente mais expressivo em termos de visitas e compartilhamentos nas redes sociais. Será que a ficção que lida com sociedades sem esperança em regimes políticos totalitários é mais atraente ao leitor ou simplesmente a felicidade é um tema que não seduz mais as pessoas no século XXI?

A imagem que abre esta postagem é um detalhe da parte central do tríptico "O jardim das delícias terrenas" de Hieronymus Bosch (clique aqui para navegar por uma versão em alta definição do Museu Nacional do Prado), uma composição em três telas que apresenta o paraíso e o inferno nas partes laterais e no quadro central, em maior destaque, os prazeres efêmeros da carne ou as "delícias terrenas" com aspectos peculiares, praticamente de caráter surrealista (quatro séculos antes do movimento surgir). Obviamente, o artista visionário pretendia representar com o seu simbolismo a vida humana entre o bem e o mal, uma espécie de utopia primitiva ligada aos prazeres sexuais e alguma luxúria.

Não há duvida de que, em nossa época, a utopia parece uma ideia cada vez mais distante, vinda de um passado remoto, e a distopia tem se tornado uma presença constante e verdadeira em nosso cotidiano, seja através do fanatismo religioso, violência e atentados terroristas em todo o mundo ou dos interesses das grandes corporações que provocam as tragédias ambientais e a corrupção política generalizada, impedindo o desenvolvimento econômico de países como o Brasil e afetando principalmente as áreas mais importantes para a população: a saúde e a educação. Não há como negar, vivemos em uma sociedade distópica e a ficção simplesmente reflete esta realidade de uma forma até mesmo ingênua.

Ocorre então um fenômeno que vivenciamos durante todo este ano, o pessimismo se torna generalizado e a busca pelo que é trágico e errado norteia o interesse da população e os próprios meios de comunicação. É muito comum então ouvirmos a expressão de que "notícias boas não vendem jornais", será mesmo? Os problemas da nossa sociedade são básicos e cruciais, fazendo com que os livros, arte e cultura, passem a ter uma menor relevância e até mesmo gerando um certo complexo de culpa em parcelas da sociedade, este me parece um caminho errado. É normal que exista o desejo de isolamento ou a polarização política. De um lado o conformismo, do outro o ódio. Sair deste impasse é o desafio dos próximos anos.

Bem, a intenção como sempre era falar de arte e literatura, mas acabei me deixando levar pelo clima de distopia deste final de ano e é evidente que não vivemos em uma ilha. Mesmo no Mundo de K a realidade às vezes bate na porta. De qualquer forma, a verdade é que existem espaços e pessoas com muito melhor preparo para falar sobre temas como política e economia, o conceito do blog é apoiar e divulgar a ideia de que arte e cultura são atividades necessárias e importantes, entre muitas outras coisas, na formação da cidadania. E, afinal, são os assuntos que pretensamente conhecemos e gostamos de falar por aqui. Nossa forma de contribuir na busca de uma sociedade utópica, enquanto for possível.

terça-feira, dezembro 20, 2016

Regina Taccola - Uma tarde embalada pelo mar

Regina Taccola - Uma tarde embalada pelo mar - Editora Frutos - Antologia de contos - 82 páginas - Lançamento: 2016.

Livro de estreia da psicanalista Regina Taccola, "Uma tarde embalada pelo mar" reúne 20 contos inspirados nos extremos do comportamento humano nas grandes cidades, normalmente utilizando como cenário a zona sul carioca, mais precisamente o bairro de Ipanema onde vive a autora. As narrativas são muito curtas, mas de extensão suficiente para provocar no leitor aquele tipo de desconforto que só a boa literatura provoca. A capa e o título podem sugerir um texto mais leve e poético, contudo não é somente isso que o leitor encontrará aqui. Na verdade, se reparamos com mais atenção, notaremos que a capa não é tão ingênua quanto nos pareceu à primeira vista, trata-se de um quadro de Vincent van Gogh, "Fishing Boats on the Beach at Saintes-Maries". Assim ocorre com esta antologia, avançar na leitura dos contos é como pisar em terreno minado, é preciso estar sempre atento para perceber o detonador que está cuidadosamente escondido em cada texto. 

Trabalhando entre os limites do que existe de belo e assustador na natureza humana, percebemos a forte influência da experiência médica de Regina Taccola no campo da psicanálise, uma vivência com o inconsciente que fica evidente em seus contos e se transforma em matéria prima na construção de seus personagens. A apresentação de Maria Christina Monteiro de Castro resume bem o estilo da autora estreante: "'Uma tarde embalada pelo mar' é assim, um mosaico que não se encaixa porque formado de sobras, cacos e retalhos. Uma mistura instigante do simples e do denso, do mais deslavado romantismo à bruta concretude do real sombrio, do conto breve, quase crônica, ao relato que tira o fôlego pela insuspeitada irrupção do perverso. Nada mais parecido com a vida."

Em "Audácia do Gato!", a protagonista é uma menina de quatro anos que é repreendida pelos adultos horrorizados: "Por que você fez isso?", "Por que? Parece maluca!". O espanto de toda a família é legítimo porque a menina acabou de fazer algo muito grave com o gatinho de estimação da casa e parece não se dar conta da importância da situação. Finalmente, ela acaba por ceder às súplicas da mãe e dá uma explicação surpreendente, "ajeita um cachinho atrás da orelha e conta: 'O gatinho vinha passando...' 'Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...' Eleva, então, a voz, trincada de excitação: 'Pra lá e pra cá, pralá e pracá, PRALÁEPRACÁ...' Espreme-se toda e depois relaxa: 'Aí, eu esganei ele.'" Mas, este não é o final da história, a autora guarda uma conclusão ainda mais inesperada.

"O rapaz do restaurante japonês" é uma história de solidão como tantas outras nas nossas grandes cidades, uma viúva de 70 anos mora em um pequeno apartamento "com excelente vista para o alto", uma situação típica dos prédios da zona sul carioca, construções em que as janelas normalmente têm vista para uma parede, e só resta mesmo a solução de olhar para o alto. Bem, a vida da solitária viúva está prestes a mudar quando ela encontra um garoto "bonito, forte" de "cabelos e olhos castanhos" que se apresenta como um sushiman que está com a cabeça rodando, devido a um besouro que entrou pelo seu ouvido. Ela logo percebe os delírios do rapaz que prepara sushis imaginários, mas decide ajudá-lo, levando-o para sua casa. Quando tudo leva a crer que a narrativa conduz a uma conclusão trágica, mais uma vez a autora nos surpreende, com um final de rara delicadeza e ternura.

No conto que empresta o título ao livro, "Uma tarde embalada pelo mar", encontramos uma descrição sensual de um casal entregue à própria paixão em um veleiro "no meio do nada": "Proa do barco, mar lascado, cabelos esvoaçando, chuveiro de água salgada, sol, sol e sol. O casco abria a fenda em vê, um risco fundo espumava. Ela era o barco voando ao vento bravo, agarrada na proa, olhos fechados, corpo de madeira, descabelada carranca de São Francisco abrindo caminho. Tensa, quase rangia, corcoveava as ondas e, junto com ele, era força da natureza. No silêncio atento, ele levava o barco a fazer amor com a água, no ar cheio de velas infladas, gemidos de vento e carícias de sal." Novamente, a autora leva a narrativa a um final inesperado. Nada é mesmo o que parece nos contos de Regina Taccola.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Wislawa Szymborska - Alguns gostam de Poesia


Alguns gostam de Poesia
(Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)

          Alguns —
          ou seja nem todos.
          Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
          Sem contar a escola onde é obrigatório
          e os próprios poetas
          seriam talvez uns dois em mil.

          Gostam —
          mas também se gosta de canja de galinha,
          gosta-se de galanteios e da cor azul,
          gosta-se de um xale velho,
          gosta-se de fazer o que se tem vontade
          gosta-se de afagar um cão.

          De poesia —
          mas o que é isso, poesia.
          Muita resposta vaga
          já foi dada a essa pergunta.
          Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
          como a uma tábua de salvação.

Wislawa Szymborska - Poemas - Editora Companhia das Letras - 168 páginas - Lançamento: 26/09/2011 - Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien (ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora e aqui resenha do Mundo de K).


sábado, dezembro 17, 2016

Melhores fotos de 2016 da National Geographic

Panda na reserva natural de Wolong na China
O site de fotografias da revista National Geographic é um verdadeiro paraíso de imagens, não só nas áreas de natureza e vida selvagem, mas também em categorias como turismo, pessoas e cultura. Os editores selecionaram as 52 melhores fotos do ano entre mais de dois milhões de imagens publicadas no site em 2016. Além dos temas tradicionais, foram destacados também alguns momentos importantes do fotojornalismo mundial. Uma ótima oportunidade para quem estiver em busca de lindos papéis de parede para computadores pessoais ou simplesmente lembrar um pouco com era o nosso planeta.

Pangolim carregado pela mãe, organização de proteção em St. Augustine, Florida, EUA
Apesar da diversidade de temas, as melhores fotos são mesmo dos animais flagrados em seu habitat natural, uma especialidade da National Geographic desde 1888, quando foi publicada a primeira edição da revista com a clássica moldura amarela. Bem, naquele tempo o mundo ainda era bem melhor servido em termos de natureza selvagem, hoje fica cada vez mais difícil flagrantes como o do urso panda na imagem que abre esta postagem, com seu triste olhar solitário (ver matéria completa da revista aqui).

Tartarugas gigantes buscam refúgio do sol no Atol de Aldabra, Oceano Índico

quinta-feira, dezembro 15, 2016

As ilustrações mágicas de Pablo Auladell

Ilustração de Pablo Auladell para "La feria abandonada" (2013)
O ilustrador espanhol Pablo Auladell é formado em filologia inglesa pela Universidade de Alicante e ganhou este ano o prêmio "Nacional del Cómic" pelo seu ambicioso trabalho "El paraíso perdido" que o júri do Ministério Cultura da Espanha considerou como de "grande valor artístico e força visual" na recriação do poeta clássico Inglês John Milton do século XVII. As suas imagens, que valorizam qualquer obra literária, são de uma rara beleza e estilo único, atingindo logo aquela região mágica e desconhecida do nosso inconsciente e ganhando o status de obras de arte.

Ilustração de Pablo Auladell para "La Puerta de los Pájaros" (2015)
Seja através de ilustrações para adaptações de obras clássicas como "El Paraíso Perdido" (John Milton), "Las aventuras de Huckleberry Finnn" (Mark Twain)  e "La leyenda del Santo Bebedor" (Joseph Roth) ou de projetos contemporâneos como "La feria abandonada" (texto de Barbara Fiore), os desenhos originais de Pablo Auladell sempre se destacam. Ele já ilustrou mais de trinta álbuns, romances e quadrinhos e seus trabalhos têm sido exibidos em galerias e feiras em Madrid, Barcelona, ​​Roma, Bolonha e Genebra. Para conhecer mais sobre as obras do artista espanhol de Alicante, assim como suas entrevistas e bibliografia, visitem o blog pessoal Vadé l'acrobatpágina oficial ou a página no facebook.

Ilustração de Pablo Pablo Auladell para "La leyenda del Santo Bebedor" (2014)

terça-feira, dezembro 13, 2016

Sobre o livro das mil e uma noites

Scheherazade, pintura de Leon Bakst (1866 - 1924)
Um clássico da literatura mundial, "O livro das mil e uma noites" compreende uma variedade de contos populares e fábulas de cunho moral do Oriente Médio e do Sul da Ásia, compiladas em língua árabe desde o século IX e reunidos em uma única história, que é narrada por uma das mais fascinantes protagonistas já imaginadas, a inteligente Scheherazade. Esta postagem utilizou como base as minhas notas sobre um dos módulos do curso "Masterpieces of World Literature" de David Damrosch e Martin Puchner, professores da Universidade de Harvard, disponível online. Este e outros cursos similares, e também de outras áreas, podem ser acessados gratuitamente neste link.

Como sabemos, Scheherazade devia contar novas histórias todas as noites, interrompendo cada conto ao amanhecer para continuá-lo na noite seguinte, o que a manteria viva ao longo de muito tempo. No entanto, ela tinha outro objetivo mais importante, porque caso ela simplesmente mantivesse a atenção do rei noite após noite, ela ainda ficaria presa para sempre. Assim, havia uma segunda tarefa que consistia em reeducar o rei que havia ficado louco após ter descoberto as infidelidades de sua esposa. Ele havia jurado matar todas as mulheres depois de passar apenas uma noite com cada uma. Isso, é claro, levaria o reino à destruição. Logo, Scheherazade precisou salvar não só a si mesma e suas companheiras mulheres, mas realmente, todo o reino, ensinando ao rei como ser rei novamente.

Desta forma, com a loucura do rei, havia uma crise política sem precedentes que precisava ser resolvida e isto foi conseguido através do lento processo de contar histórias, sempre presenciadas por sua irmã mais jovem Dunyazade, histórias que, no final, giravam em torno de decisões de reis justos e boa governança. Um personagem importante nesses contos ou fábulas era o famoso Califa de Bagdá, Harun al-Rashid, que caracterizava o núcleo árabe da coleção. Outros contos vêm de outras partes do mundo como a Pérsia e a Índia. Uma informação importante sobre Harun al-Rashid é que ele criou a primeira fábrica de papel no mundo árabe, originalmente importado da China através da Estrada da Seda.

O uso do papel transformou a literatura no mundo árabe porque era muito mais fácil de ser produzido do que o papiro ou o pergaminho. Portanto, reduziu o custo de produção da literatura e isto foi perfeito para o "livro das mil e uma noites" que não era considerado como alta literatura e sim uma forma mais popular, orientada para as pessoas da cidade e comerciantes, normalmente em destaque em suas páginas. Mesmo protagonizando alguns reis característicos como Harun al-Rashid, normalmente as fábulas se referiam a pessoas comuns. Este tipo de literatura conseguiu prosperar apenas quando o custo de produção e, portanto, as barreiras de acesso, foram reduzidas com a introdução do papel.

No ocidente, a primeira importante tradução do "livro das mil e uma noites" foi de Antoine Galland (1646-1715), orientalista e arqueólogo francês. Sua versão foi publicada em doze volumes entre 1704 e 1717. O criativo Antoine Galland foi mais do que um tradutor, tendo incluído em sua versão alguns dos contos mais famosos. Por exemplo, não há manuscritos árabes de Aladim e Ali Baba. Isso levou alguns estudiosos a concluir que Galland os inventou pessoalmente e as versões em árabe são apenas versões posteriores de seu original francês. Na verdade, a fonte de Galland, segundo o próprio, foi um contador de histórias chamado Hanna Diab, um maronita de Alepo, que narrou-lhe contos como o de "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa" e o de "Ali Babá e os Quarenta Ladrões" que não constavam do conjunto original. O fato é que as histórias ganharam popularidade em toda a Europa, gerando outras traduções e adaptações.

A primeira tradução para o inglês do "livro das mil e uma noites" foi publicada em 1840, em três volumes, por Edward William Lane (1801-1876), uma versão claramente censurada pelo próprio tradutor que compartilhava a visão usual da "moralidade vitoriana" do século XIX. Esta versão era, portanto mais centrada nas práticas culturais e questões sociais. Posteriormente, a versão de Sir Richard Francis Burton (1821-1890), foi bem mais realista com a inserção de elementos eróticos e práticas e costumes sexuais do oriente, sempre uma fixação para os europeus (ler uma versão disponível aqui).

Um fato interessante a ser destacado sobre a questão de Scheherazade como heroína feminista, em uma sociedade tipicamente patriarcal, é que ela tem sido proclamada por gerações, mesmo durante séculos, como uma salvadora das mulheres, o que não deixa de ser uma avaliação justa de seu valor. Mas curiosamente, o que ela faz é retornar o mundo para o seu status quo. Ela não é revolucionária no sentido das feministas tradicionais da história, o que ela faz realmente é utilizar os seus dons narrativos como uma espécie de terapia para o rei. Ela o salva de sua própria loucura.

Contudo, talvez o ponto mais interessante sobre o "livro das mil e uma noites" é que o mesmo não seja considerado até hoje como alta literatura no próprio mundo árabe. De fato, os estudiosos queixam-se do que eles chamam de "Síndrome das mil e uma noites", com o significado da sobre-representação e valorização do livro e suas diversas adaptações no mundo ocidental (inclusive no cinema) sobre a verdadeira cultura árabe. Esta valorização tende a somente reconhecer os trabalhos literários que representem esta tendência ou preferência pelo fantástico ou sobrenatural.
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